Vou morrer lutando

“Preta, gorda e nordestina” foram os adjetivos que um internauta utilizou de forma mal intencionada para ofender Maíra Azevedo, a Tia Má, há alguns anos. Desde então, a jornalista, que respondeu ao comentário perguntando qual era a novidade, usa a frase como uma descrição pessoal que serve para dizer que não tem vergonha nenhuma de pertencer a essas classificações. Nesta semana, Tia Má voltou a ser vítima de ofensas pela internet. Porém, ao contrário da primeira vez, os últimos insultos tiveram ameaças de morte como agravante (veja aqui). Em conversa com o Bahia Notícias, ela deu mais detalhes sobre a situação. “Uma pessoa começou a me enviar várias palavras racistas em inglês, achando que eu não ia entender. Mas eu sou toda trabalhada no inglês. Aí uma hora eu falei: ‘eu estava te ignorando, mas o que você está fazendo é crime e eu vou te denunciar’”, contou a repórter. De acordo com Tia Má, a pessoa ligou para o número do celular que ela usa para trabalhar e tentou remediar a situação com mais ameaças. “Maíra, é melhor você parar se não você vai se ver comigo. É pra acabar agora, não quero ir pra imprensa”, teria dito o autor das ameaças. Nesse momento, Tia Má garantiu que não sentiu medo das ameaças e que foi incisiva em sua retórica: “Então me mate, porque eu vou morrer lutando”. A ocorrência foi registrada pela 1° delegacia de polícia, localizada nos Barris, em Salvador, na tarde da última quinta-feira (1°).

 

Apesar do incidente descrito acima ter ganhado repercussão na mídia nesta semana, os posicionamentos de Maíra sobre questões raciais surgiram antes. Conhecida por tratar de forma bem humorada temas como racismo e questões feministas, a digital influencer diz que percebia a discriminação desde o período em que estudava em escolas de ensino fundamental. “Era complicado chegar nesses lugares sozinha […] Eu era a ameixa do pudim”, lembra. A comunicadora, que atualmente trabalha como consultora do programa “Encontro com Fátima Bernardes”, acredita que o racista não destina seu ataque especificamente para uma pessoa, mas para a raça negra em geral. “Mesmo que essa pessoa seja negra, ela não deve se identificar como uma. O ódio dele não é com Maíra, é com todas as pessoas negras”. 

Ancorando-se na paixão pela escrita, Tia Má decidiu ser jornalista com apenas 11 anos. “Eu estava em uma escola que quando você aprontava, você tinha que ler os livros. Então eu estava na biblioteca todos os dias. Eu já tinha lido todos os livros para a minha idade […] Eu tomei gosto pela leitura e achava que quem escrevia era jornalista, aí eu cresci com essa vontade de socializar a notícia, de contar histórias”. No presente, Maíra é categórica ao falar sobre seu trabalho. “Eu sou o meu produto”, esclareceu a humorista fazendo referência à sua imagem como influenciadora e intérprete em stand up. E por falar nessa modalidade de apresentação, Maíra garante que é a primeira mulher negra do Brasil a protagonizar um stand up.

 

De uma forma ou de outra, a careira de Tia Má sempre esteve ligada à mídia. E nessa esfera, ela também consegue notar a discriminação racial: “Os veículos são racistas. Não são as pessoas [que trabalham nesses veículos]. A mídia reproduz o modelo antigo que acha que a gente que é preto não está preparado […] A gente serve para segurar os fios e não para apresentar”. Ela acredita que trabalhar com os holofotes dá um certo nível de poder, porém a baixa participação de negros na frente das câmeras “é um resquício do período escravocrata”. 

 

Foto: Reprodução / Facebook / G1 (Clique na imagem para ampliar)

 

Na última sexta-feira (2), as ameaças de morte voltaram com mais força, e foram publicadas por Maíra em seu perfil do Facebook. Ao explicar porque optou por expor as mensagens publicamente, ela frisou que “é importante que as pessoas vejam que não tem que ter vergonha”. “Quem tem que ter que ter vergonha é quem agride”.

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